quinta-feira, maio 08, 2008

''Um projeto arquitetônico nunca está acabado''


Com inauguração prevista para maio, a sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, revela ao país as formas e o pensamento do português Álvaro Siza, um dos maiores arquitetos vivos
* por Gabriela Motta


O português Álvaro Siza acredita que projetar um museu, biblioteca ou igreja é como propor uma utopia para o mundo. Com um currículo extenso, o arquiteto nasceu em 1933, na cidade de Matosinhos. Desde a década de 1960, vem assinando uma série de criações que o levaram, em 1992, a conquistar o Pritzker Prize, a maior premiação da arquitetura. Em maio, um de seus trabalhos será oficialmente inaugurado em Porto Alegre. É o prédio da Fundação Iberê Camargo, cujo projeto ganhou em 2002 o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza, uma das mais concorridas do planeta. O prédio reunirá a produção do pintor gaúcho morto em agosto de 1994. Também servirá de espaço de exposições temporárias e outros eventos. Ao conceber a sede da fundação, Siza fez questão de levar em conta essas múltiplas exigências, justamente por acreditar que "as atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação". Tal conceito também está presente em algumas de suas obras mais famosas, como o celebrado Museu Serralves, no Porto, e o Edifício Bonjour Tristesse, em Berlim. A seguir, um pouco do pensamento de um dos principais arquitetos contemporâneos, com quem BRAVO! conversou em Porto Alegre.

BRAVO!: Por que o senhor considera seus projetos como utópicos?
Álvaro Siza: Porque, para mim, um edifício deve responderà sua função com muito rigor, mas ao mesmo tempo deve ter a capacidade de se desligar dessa função. É nesse sentido que encaro a arquitetura como utópica só que se trata de uma utopia com os pés na terra. Veja, por exemplo, um convento. É feito para uma comunidade que possui regras de comportamento muito estritas. No entanto, ao longo dos anos, os conventos vêm sendo utilizados para tudo: como bibliotecas, escolas, hotéis. Tudo o que se possa imaginar cabe dentro de um convento. Ele tem a capacidade de desempenhar inúmeras funções, além da propriamente religiosa, e assim durar no tempo, não se tornar obsoleto. O meu propósito é exatamente este: o de investir na continuidade dos projetos. Não tenho a idéia de que um edifício deva durar 20 anos e, depois, ser posto abaixo.

O senhor acredita que o brasileiro Oscar Niemeyer seja também "um utópico com os pés no chão"?
Ainda há pouco li uma entrevista de Niemeyer numa revista em Portugal. Lá pelas tantas, falando de um edifício histórico, não lembro qual, ele disse: "É um edifício muito moderno. Foi construído no século tal, mas é moderno". Essa maneira de ver as coisas revela justamente a capacidade de se desprender das circunstâncias para buscar uma influência maior na vida das cidades.

E como o senhor se sente realizando um museu no Brasil, onde Niemeyer é tão onipresente? Sinto-me bem! Os edifícios no Brasil são belos. E os de Niemeyer, não só os dele, mas os dele em especial, estão muito relacionados com a paisagem do país: Ipanema, o Corcovado, o Pão de Açúcar, aquelas curvas todas. Quem nasce num meio assim absorve isso.

Hoje a arquitetura é discutida por todos em decorrência de projetos de impacto. O que se perde com isso?
De fato, fala-se muito sobre arquitetura também em Portugal. Aliás, é relativamente recente a entrada do assunto nos jornais diários portugueses. No entanto, ainda que haja divulgação, nem sempre essa divulgação me parece bem feita, por estar bastante vulnerável a fatos externos, que não dizem respeito à arquitetura em si mesma, como interesses políticos e econômicos. De qualquer maneira, acho bom que se discuta o tema, porque a arquitetura não é feita para a contemplação de meia dúzia de pessoas.


Qual a sua relação com os projetos quando acabam?
Vou para casa.


E não volta?
Diversas vezes, não volto. Em outras ocasiões, quando volto, fico desgostoso. Projetar é algo muito intenso, exigente e absorvente. Há mesmo que se fazer um esforço de desprendimento para construir e inaugurar um edifício. Custa sempre muito quando se acaba um projeto, porque, na verdade, ele nunca está acabado. Ainda assim, deve-se aceitar que um projeto, no final das contas, faz parte do patrimônio público e, portanto, segue sua vida própria. Isso, claro, se tiver força, estrutura para agüentar o passar dos anos e as modificações que nele se processam. Se não tiver, o projeto também demonstra a sua fragilidade, a sua inviabilidade.

O senhor conhecia a obra de Iberê Camargo antes de ser chamado para projetar a fundação?
Não conhecia a obra dele nem Porto Alegre. Na verdade, o Iberê é pouco conhecido em Portugal. Claro, existem algumas pessoas, críticos de arte, que o conhecem. Eu realmente não o conhecia o que é uma vergonha, de qualquer maneira. Mas a culpa não é só minha. Não há muita informação sobre ele em Portugal e mesmo na Europa.

Em que medida o projeto reflete a obra de Iberê?
Não reflete tanto, não. Até porque a obra de Iberê, como a de qualquer artista que tenha uma coleção, não é algo muito estanque, fechado. Ao longo do tempo, por exemplo, será confrontada com o trabalho de artistas que foram próximos a ele ou que o influenciaram. E um museu precisa levar em conta essa dinâmica. Assim, não é possível desenhar a sala tal para o quadro tal. O projeto arquitetônico deve exibir uma certa neutralidade, uma certa flexibilidade, e permitir que se montem exposições de acordo com a sensibilidade e os objetivos de quem as organiza. Atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação.

GABRIELA MOTTA é crítica e curadora, autora de Entre Olhares e Leituras: Uma Abordagem da Bienal do Mercosul (Zouk Editora, 2007).

terça-feira, maio 06, 2008

"Diziam que meus projetos eram malucos e caros", diz arquiteto chinês

RAUL JUSTE LORESda Folha de S.Paulo, em Pequim

Na terra onde o Estádio Olímpico foi desenhado por suíços; o aeroporto internacional, por um inglês; o ginásio da natação, por australianos; e a nova ópera, por um francês, finalmente um chinês conseguiu espaço entre as mais badaladas estrelas da arquitetura.
Divulgação
Arquiteto projetou prédio no Canadá, apelidado de Marilyn Monroe
Aos 31, Ma Yansong virou celebridade no seu país ao fazer o caminho inverso: vencer concursos internacionais na Dinamarca, no Japão e na Malásia e construir duas torres de mais de 50 andares no Canadá, tão cheias de curvas que foram apelidadas de Marilyn Monroe.
Após estudar em Yale com a premiada arquiteta iraquiana Zaha Hadid, com quem trabalhou dois anos em Londres, Ma voltou à China para desenvolver um projeto nunca construído. Foi quando abriu seu escritório, Mad, com um discípulo. Quatro anos depois, tem uma equipe de 40 arquitetos.
"Não conheço um único arquiteto desempregado na China", disse Ma à Folha, em seu belo e despojado escritório, em uma área popular de Pequim que ainda não foi destruída para dar espaço a arranha-céus.A história de Ma revela o boom arquitetônico do país, onde 50% do cimento mundial é consumido. Há 3.000 prédios em construção apenas na capital chinesa. "Hoje não tenho tempo de aceitar as dezenas de convites que recebo, mas só fiz sucesso aqui depois de ganhar o concurso no Canadá", diz Ma, confirmando que santo de casa também sofre na China.
"Antes diziam que meus projetos eram malucos e caros."
Seu mais novo projeto é uma torre de 385 m de altura, mais que o dobro do edifício Itália paulistano, para a gigante siderúrgica Sinosteel, no porto de Tianjin, a 120 km da capital. O revestimento do prédio lembra uma colméia -por conta dos "favos" por onde entra a luz.
Ele foi convidado a desenhar um novo centro financeiro, com mais de 20 edifícios, para Beihai, no sul da China. "Se o cliente confia, você pode ser ambicioso. As autoridades chinesas andam competindo por quem faz os prédios mais audaciosos, mais arriscados ou os arranha-céus mais altos."
Ma é crítico de boa parte dos arranha-céus de Pequim, "cada vez mais iguais, caixotões sem personalidade". Seus projetos ousam nas curvas e em geometrias arriscadas, "macios", segundo ele, onde se nota a influência de sua mentora Hadid.
Curvas presentes em até seus primeiros -e pequenos- projetos, como o clube Hong Luo, centro de convivência construído em 2005 em um condomínio de Pequim.

Tiananmen verde
Seu projeto mais polêmico e discutido na China ultimamente, porém, tem poucas chances de ser realizado, segundo o próprio arquiteto. É deixar "verde" a praça Tiananmen, da Paz Celestial, a maior do mundo, palco da violenta repressão da ditadura comunista em 1989.
A praça é sede do Congresso do Povo e entrada da Cidade Proibida, complexo de residências imperiais, onde hoje fica o gigante retrato do líder comunista Mao Tsé-Tung. "Mao a construiu com inspiração na praça Vermelha, de Moscou. Mas o país mudou, não temos mais paradas militares lá, a Tiananmen é lugar de passagem, os pequineses não a usam."
Em seu projeto, a praça é revestida de árvores, fontes, espaços para cultura e até um pequeno morro. "Fiz o projeto para provocar, colocar o pequinês a pensar sobre o uso da cidade, e as pessoas adoram árvores. Quem sabe um dia?", sonha.

Jovens no Brasil
Ma diz não ter fórmula para virar arquiteto internacional. "Veja Niemeyer: ele não imitou ninguém, começou construindo no Brasil e é um nome internacional." Ele conheceu obras de Niemeyer, como o Copan (São Paulo) e a casa de Canoas (Rio) no mês passado, quando esteve no Brasil para o 6º Fórum Internacional de Arquitetura e Construção. "Gostei das curvas do Copan e daquela galeria aberta para a rua."
Ao ser ciceroneado pelas obras de Niemeyer, estranhou não ver obras de arquitetos jovens. "Eles não estão construindo? Deveriam vir para a China! É difícil conseguir bons arquitetos, há falta deles!"

sexta-feira, maio 02, 2008

A saga de Nova York (Bravo Online)

Panfletário, energético, radical. Assim é Rem Khoolhaas, o arquiteto que vive toda velocidade, como mostra seu livro sobre a cidade fetiche do século 20
* por Marcelo Rezende


No último mês, o arquiteto holandês Rem Koolhaas experimentou em 30 dias algo que poucos têm a chance de encontrar durante toda a existência: uma vida a jato. Ele esteve em Abu Dhabi (Emirados Árabes) e depois seguiu para a China, atravessando Pequim e Shenzhen, para terminar passando alguns dias em Tóquio. Após mais conversas e reuniões, o retorno para Roterdã, sede do Office for Metropolitan Architecture (OMA), escritório criado por ele e sócios em 1975.
E essa foi apenas a primeira quinzena. Nas semanas seguintes, Berlim, Paris e Nova York. Koolhaas, aos 63 anos, é um ativista, um propagandista do novo. Sua fama não foi construída apenas pelos edifícios, mas por manifestos e ações que colocam em questão dogmas sobre o modo como se vive hoje. Essa ambiciosa trajetória se inicia em 1978 com Nova York Delirante, ensaio já clássico sobre arquitetura, editado agora no Brasil pela Cosac Naify.
Na época em que foi lançado, o texto serviu para mostrar que a era dos arquitetos teóricos, e apaixonados por uma utopia, não havia acabado. Nova York Delirante é um livro sobre cidades. Mas não se trata de um estudo técnico sobre construções ou planos urbanos de uma metrópole que se tornou, no século 20, fetiche mundial. Na verdade, o livro é um manifesto — o subtítulo da obra é exatamente Um Manifesto Retroativo para Manhattan. A obra narra a história social da construção da cidade.


Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.

Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.

CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.

Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.

Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.

CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.

Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.
Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.
CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.
Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.