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domingo, junho 22, 2008

Entrevista com Helio Piñon

A DOUTRINA, A TEORIA E A PRÁTICA
PARA HELIO PIÑÓN, A INOVAÇÃO É IRRELEVANTE E A ADOÇÃO DO CONCEITO COMO CRITÉRIO DE AÇÃO, DESASTROSA
POR VALENTINA FIGUEROLA FOTO MARCELO SCANDAROLI

Pesquisador, professor, crítico e arquiteto. Essas são algumas das atribuições do espanhol Helio Piñón, que esteve recentemente no Brasil a convite do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura (Propar) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em Porto Alegre, na UFRGS, e em São Paulo, na Escola da Cidade, deu palestras e ministrou o curso Projeto, Modernidade e Aprendizado. Dono de opiniões muitas vezes radicais, fundamentadas em um discurso claro e coeso, Piñón acredita que a arquitetura, sobretudo a que se pratica desde a década de 70, vive um processo de intensa decadência, marcada pela proliferação de "modismos" que são incentivados pelas faculdades de arquitetura e revistas especializadas no assunto. "Faz 30 anos que a arquitetura se converteu num elemento de consumo midiático e econômico", declara o arquiteto, que é autor de mais de 21 livros sobre arquitetura, um deles sobre Paulo Mendes da Rocha (Paulo Mendes da Rocha, Coleção Documentos de Arquitetura Moderna, Romano Guerra Editora). Em 2000, fundou o Laboratório de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona, onde desenvolve sua atividade profissional e investigativa. O lançamento do livro A teoria do projeto, pela editora Livraria do Arquiteto, traduzido por Edson Mahfuz, foi um dos principais motivos da visita de Piñón ao País. "O livro responde às grandes questões do projeto de arquitetura, abordadas com a perspectiva de quem compartilhou, durante 35 anos, a prática profissional com a reflexão e a docência", diz Piñón. Nascido na cidade de Onda, em 1942, é autor de numerosos projetos na Espanha e em outros países, realizados em conjunto com Albert Viaplana, como a Praça dos Países Catalães e o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona.

aU COMO SURGIU A IDÉIA DE PUBLICAR O LIVRO A TEORIA DO PROJETO NO BRASIL?HELIO Piñón Foi uma iniciativa de meu amigo Edson Mahfuz, com quem mantenho uma relação pessoal e epistolar há anos. Ele me propôs traduzir o texto para o português, o que, conhecendo a seriedade com que aborda seus trabalhos, me pareceu um luxo: na realidade, é a única maneira de abordar um projeto dessa natureza, se quer que as idéias não acabem desvirtuadas por efeito da transposição lingüística. Enviava-me os capítulos à medida que os traduzia e devo confessar: praticamente não encontrei objeções a seu trabalho. Quero aproveitar para fazer público meu reconhecimento a Mahfuz e agradecer o projeto de traduzir outros textos complementares ao de Teoria do projeto, da mesma coleção.

aU QUE LIÇÕES O LEITOR PODERÁ EXTRAIR DO LIVRO?
Piñón Entendo a teoria como a tentativa de resolver, mediante a reflexão, aquelas questões sem resposta no sentido comum; nada a ver, portanto, com a doutrina, que tem um propósito didático baseado em um conjunto de princípios que definem o estado de opinião de alguém sobre algum assunto. A diferença não está, portanto, no grau de subjetividade – a teoria é subjetiva, posto que é resposta de um sujeito a um problema – mas sim no propósito da reflexão: o da teoria é adquirir conhecimento, o da doutrina, difundi-lo. Em Teoria do projeto tratei de encontrar resposta para as questões estéticas e operacionais levantadas pelo projeto moderno na arquitetura. Há 50 anos a arquitetura moderna era hegemônica, de modo que se podia aprender apenas olhando as revistas que publicavam as obras fundamentais. Mas a proliferação de concepções surgidas ao longo das últimas décadas faz com que o nível de consciência deva ser maior. É aí onde acredito que meu livro pode resultar útil, porque esclarece o sentido de uma arquitetura real que, pelo que vejo, volta a interessar a uma maioria de arquitetos comprometidos com sua atividade e com a história.

aU O LIVRO SE BASEIA EM PROJETOS DE SUA AUTORIA? QUAIS OS CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA ESCOLHÊ-LOS?
Piñón Não, o livro não está baseado em nenhum projeto específico, mas em toda a arquitetura que me interessou – e da qual aprendi e continuo aprendendo – desde que comecei meus estudos de arquitetura, há quase 50 anos. Na realidade, os temas que abordo no livro são os temas da arquitetura em geral, mas com a particularidade de que não foram retirados de um livro, e nem de discursos alheios, mas sim da experiência direta da arquitetura. Os grandes temas do livro respondem às grandes questões do projeto de arquitetura, abordadas da perspectiva de quem vivenciou durante 35 anos a prática profissional com a reflexão e a docência. A modernidade, ou seja, a dialética entre a forma e o olhar, proporciona a perspectiva com a qual se aborda a técnica, o lugar, o tempo e a sociedade.

aU O SENHOR DIZ QUE "A ARQUITETURA NÃO DEVE SER NOVA PARA SER BOA", E QUE "A ATUAL OBSESSÃO PELA INOVAÇÃO É ALGO NOCIVO". ESSA INOVAÇÃO A QUE O SENHOR SE REFERE SERIA TECNOLÓGICA OU FORMAL? EXISTE ALGUMA CIRCUNSTÂNCIA EM QUE A INOVAÇÃO É AUTÊNTICA E BEM-VINDA NA ARQUITETURA?
Piñón O problema da inovação é que ela se associa a uma questão mal colocada. A inovação não é boa e nem má, simplesmente é irrelevante para a qualidade de uma obra de arquitetura, ou de arte, em geral. Aliás, situar o propósito da inovação aliena a prática do projeto, de modo que a surpresa ocupa o lugar que deveria ocupar a qualidade. Isto serve tanto para a inovação tecnológica como para a formal. A qualidade essencial da arquitetura é a identidade da obra, definida como conjunto de qualidades que fazem que uma obra chegue a ser algo mais do que um amassilho de intenções e desejos. Se uma obra de arquitetura chega a ter uma identidade própria como universo ordenado – o que não é fácil e nem óbvio – provavelmente será inovadora no sentido estrito, porque a autêntica inovação é a que afeta a configuração do edifício, não aquela que se limita a renovar sua aparência.

aU O SENHOR DIZ QUE SE AS FACULDADES FECHASSEM, A QUALIDADE DA ARQUITETURA SERIA MELHOR. POR QUE, EM SUA OPINIÃO, AS escolas ESTÃO LEGITIMANDO A DECADÊNCIA DA ARQUITETURA?
Piñón As faculdades começaram a legitimar a decadência da arquitetura no momento em que assumiram o pós-modernismo sem advertir seu efeito perverso sobre o que tratavam de ensinar. Agora assumem a redução do arquitetônico ao midiático, sem explicar claramente que grande parte do que preenche as revistas atualmente não tem nada a ver com a arquitetura. O problema é que grande parte dos professores não tem nenhuma alternativa senão oferecer a troca de modas na qual se baseia a arquitetura dos últimos 40 anos. E eu diria que nem são conscientes desse fenômeno.
aU QUAL SERIA, ENTÃO, A METODOLOGIA PEDAGÓGICA IDEAL? O SENHOR A PRATICA?
Piñón Não me atrevo a falar de metodologia a respeito de uma prática que de nenhum modo pode ser considerada científica e que, aliás, tem uma forte dose de intuição. De qualquer maneira, o procedimento que utilizo há duas décadas, e que ofereço a quem o considere razoável, é trabalhar com a arquitetura como material de projeto, ou seja, aliviar o aluno da necessidade de elaborar sua própria matéria-prima, tarefa para a qual não está preparado e, em vez disso, fazê-lo trabalhar com arquiteturas exemplares. Na realidade, a arquitetura sempre foi aprendida dos edifícios. Somente há 40 anos é que se trata de ensiná-la mediante conceitos, com os resultados que todo mundo conhece. Minha atitude diante da arquitetura é similar à que tinha Bach diante da música, quando recorria às melodias de Haendel, Vivaldi ou às suas próprias, tendo a obrigação de compor uma cantata semanal, em seu estágio de Kantor na igreja de Santo Tomás de Leipzig.

aU MUITOS ESTUDANTES DE ARQUITETURA E RECÉM-FORMADOS PERCEBEM O DISTANCIAMENTO ENTRE O DISCURSO DOS PROFESSORES E SUAS PRÁTICAS PROFISSIONAIS. COMO PROFESSOR, ARQUITETO E CRÍTICO, O SENHOR TRANSITA CONSTANTEMENTE PELOS ÂMBITOS PRÁTICO E TEÓRICO. COMO MANTÉM A COERÊNCIA NESSE PROCESSO EM UM MUNDO ONDE A ARQUITETURA É OBJETO DE CONSUMO?
Piñón Manter a coerência entre dois universos que praticamente se ignoram – o da arquitetura e o de sua prática social – é impossível. Em todo o caso, pode-se manter a coerência pessoal, ou seja, entender a teoria como a intenção de resolver por meio da reflexão aquelas questões que não têm explicação mediante o sentido comum. E entender a prática como uma atividade comprometida com a representação da construção, e não com a materialização, a qualquer preço, de uma série de caprichos determinados pelo estado de ânimo.

aU NO EDIFÍCIO DA PREFEITURA DE BENISSA, EM ALICANTE, A MALHA ESTRUTURAL DO ESTACIONAMENTO FOI O PONTO DE PARTIDA PARA O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO. EXPLIQUE O PORQUÊ DESSA DECISÃO.
Piñón Não. A malha estrutural não foi o modo de desenvolver o projeto entendido como concepção, senão o modo de começar a defini-lo como materialidade. Não creio que haja outro modo de fazê-lo, a não ser que o arquiteto seja tão irresponsável que não se importe com a baixa eficiência do estacionamento. De qualquer maneira, no Laboratório (de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona) nos acostumamos a trabalhar sobre uma pauta sistemática por razões tanto materiais quanto formais: na arquitetura moderna não se dispõe da garantia de sistematicidade proporcionada pelas ordens e pelos tipos clássicos da arquitetura classicista, de modo que se deve consegui-la com o projeto. Desde que tenhamos de escolher uma unidade modular, parece razoável utilizar uma retícula estrutural que, ajustando-se às medidas de um estacionamento, seja compatível com o resto das atividades do edifício.

aU EM SUA OPINIÃO, A ARQUITETURA DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, SOBRETUDO A DOS ÚLTIMOS 50 ANOS, É VISUALMENTE BANAL, E ISSO ESTARIA ASSOCIADO AO "ECLIPSE DO OLHAR". ESSE TERMO SE REFERE À PERDA DE CAPACIDADE VISUAL E ANALÍTICA DO ARQUITETO?
Piñón Os arquitetos sabiam ao que se ater até os anos 70, quando dispunham de um modo de conceber, de elementos e critérios que atuavam como matéria-prima para os seus projetos. Assim se atingiu, em setores amplos da arquitetura internacional, um nível de qualidade excelente. O chamado Estilo Internacional alcançou seu ápice nestes anos. O abandono dos critérios de modernidade, sem dispor de outros valores para reposição, fez com que os arquitetos que liderassem "a reforma" propusessem o conceito como critério de ação e, ao mesmo tempo, como instância de verificação do projeto. No futuro, o conceito não só proporcionaria o estímulo do projeto, como também serviria para comprovar o resultado. Se o projeto se ajusta ao conceito que o provocou, tudo bem, caso contrário, tudo mal. Essa solução resultou muito cômoda para a maioria dos arquitetos, mas foi nefasta para a arquitetura. A renúncia da dimensão cognoscitiva do olhar deu possibilidades de projetar com certa confiança a pessoas não especialmente dotadas para a arquitetura, o que provocou uma modificação "de valores e de poderes" que pairam sobre a situação atual.

aU FALA-SE MUITO SOBRE ARQUITETURA ATUALMENTE, MAS O SENHOR NÃO CONSIDERA ISSO BOM. POR QUÊ?
Piñón Faz 30 anos que a arquitetura se converteu em um elemento mais do consumo midiático e econômico. Por exemplo, há muito mais revistas do que há 40 anos, mas não conheço nenhuma que esteja tão bem considerada como algumas que havia quando comecei a carreira. O falar de arquitetura, nos termos em que se faz, tem, em parte, um efeito tranqüilizante sobre as consciências que inibe a capacidade crítica, tanto de arquitetos como de cidadãos e, por outro lado, cria a ficção de que a boa arquitetura é aquela sobre a qual se fala, o que não pode estar mais longe da realidade. Começarei a duvidar dos métodos para curar o câncer de próstata, por exemplo, quando os jornais e semanários os tratem com a freqüência – e a frivolidade – com que faz décadas se trata a arquitetura.