



Muito pertinente o texto publicado no site vitrúvius - Bola, dobra, pneu, desdobra, arte, redobra, bar... Agenciamentos arquiteturais no contemporâneo, que faz paralelo com a obra: A dobra, do filósofo francês Gilles Deleuze, na análise de dois projetos; um edifício bar no térreo com quadra de basquete na sua cobertura e outro, loja de pneus no térreo com galeria de arte no superior. “Um programa simples. Parte da observação das necessidades locais e, de seu entendimento, avigora a proposição de justapor funções. [...] O Basket-Bar reforça certas lições: apesar de ser uma pequena intervenção – nada "formal" – supera seu programa (visto como ação; deleuziana) e faz-se por um desejo urbano, cotidiano, utilitário, citadino. Uma busca por relações. Uma proposta de cidade”. Um exemplo muito interessante de como a arquitetura, trabalhada inicialmente num plano “extra-formal”, cria resultados excepcionalmente novos, materializados a partir de um repertório conhecido. O esforço que não está apenas no labor do desenho, nas exaustivas operações compositivas, na investigação de uma forma, mas no pensamento justaposto das relações de espaço, tempo e sobretudo humanas. No afã de contemplar, como diz Medrano, a questão cotidiana, utilitária, citadina, cria-se sobretudo algo diferente, que no texto é definido como: “...que transcende a síntese da materialidade formal para uma síntese da virtualidade poética”. Entende-se então que essa virtualidade poética é o elemento novo, a citada novidade, a energia emanada dos choques funcionais, a subjetividade que banha algo materialmente conhecido e o transforma em algo a se descobrir.
A princípio, algo realmente inusitado, unir funções tão distintas, pertencentes à diferentes classes de usos, espacializadas na cidade em setores próprios, e agora juntas num mesmo edifício?
Antes de se aplicar um esquema, estratégia, arranjo espacial, formal, ligados à materialidade da obra; os arquitetos partem de uma reflexão sobre utilização e necessidades, conforme diz Medrano, autor do projeto Basket-bar:
Comentando a obra de Hélio Piñon, teoria do projeto, Mhafuz diz em relação ao programa:
“O programa é o maior vínculo que um projeto mantém com a realidade; sendo a realidade o seu horizonte, o sentido de um projeto é articulá-la. "
"... a verdadeira novidade em arquitetura aparece quando muda a sua concepção programática, que é o verdadeiro reflexo do espírito dos tempos.”
Essa subjetividade analisada no texto, pode ser comparada com o conceito de Visualidade citado por Piñon, como sendo uma via de duas mãos, que parte da configuração formal criada pelo projetista, mas que necessita da contrapartida do indivíduo que a observa, ser percebida e entendida para que ocorra a completude do artefato arquitetônico. Ou seja, o projeto materializado na sua síntese formal, necessita da interação do sujeito para que o potencial subjetivo da obra venha à tona. E até pode-se dizer que com esse necessário apoio sobre a observação do indivíduo para que a obra revele-se no limiar mais elevado, completo, de sua concepção, seja uma das brechas por onde penetram os equívocos e confusões acerca do entendimento, percepção e logo existência da arquitetura. Pois o que não conhecemos, ao menos nesse dado instante, é algo que não existe.
Vale a pena ainda, ilustrar uma atitude projetual, citada por Piñon, extremamente pernisiosa e que pode-se entender como fruto de um formalismo cego; a idéia.
Diz que a idéia, é uma forma de se projetar ao contrário, que começa pelo fim. Onde primeiramente se determina o ponto onde se quer chegar, reduzindo o projeto a uma mera forma de comprovação de algo já concebido, malogrando soluções extraídas do processo que conferiria a arquitetura como artefato de qualidade à retratação de uma abstração engendrada por qualquer arbitrariedade. Onde a conseqüência desse atalho, para se criar algo novo, espantoso, midiático, é um edifício incipiente no melhor dos casos.
Não pode-se dizer, que a forma dentro desse plano exposto, não importa ou adquiri conotação menor. A forma nesse caso, está substancialmente calcada na coexistência com os demais elementos que a animam . Assim, a forma passa a trabalhar para, e não como sendo o fim, o próprio métier modernista, (para relembrar, não-tipológico), organizando funções e suas relações, que desta vez, justapostas.
Retirando a “sobrecarga” sobre a forma, ilumina-se conceitos baseados na observação, no comportamento, nas novas relações e necessidades, coisas naturais da evolução, que do contrário atrofiam-se, fadados a um anacronismo.
Um híbrido que não somente cria um tipo de espécie nova, mas uma proposta de se pensar a arquitetura, como algo mais real, útil e poético.
http://www.camenzindevolution.com - loja de pneus e galeria de arte.
http://www.nlarchitects.nl - basketbar
Livro: Hélio Piñon - Teoria do Projeto
4 comentários:
Muito bom o texto!
Muito obrigado Ricardo!
Grande abraço
moral o artigo cara
pô nem fomos almoçar lá no largo aquele dia
cara devia ter mais gente lendo seu blog! tem poucos comentários...
é isso aí
abraço
Grande Bruno!
Muito obrigado!
Realmente, são poucos comentários, este espaço é um tanto quanto de garagem ainda.
E então, o almoço acabou não rolando, mas vamos combinar um outro.Vou dar um toque no Nanako.
Abraço
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