

A proposta de vir trabalhar em Saint Martin surgiu com a contratação de Fabiano pelo escritório do Lord Norman Foster. O processo de transição (como se diz em transferência de gestão de cargos executivos) durou por volta de dois meses. Ficamos em contato intenso por e-mails e msn onde ele tratou de me passar grande parte das informações pertinentes à vida caribenha, grande parte, não todas. Lembro-me bem de ter perguntado um par de vezes – ‘E esse lance de furacão ai, como é?!’- o silêncio imperava, nunca fui respondido. Pensava, será que isso é lenda? Será que estou fazendo uma pergunta estúpida para quem vive lá? Finalmente depois que aqui cheguei entendi ...Fabiano ‘Zé Pequeno’ Friedrich me passava todas as informações, desde que convenientes e tranqüilizadoras.
Passamos 10 dias juntos aqui em Saint Martin, e meu cicerone foi de primeira. O cara simplesmente, e isso percebi ao longo do tempo, me passou as informações e rotas realmente importantes, como se filtradas, nada prolixo, preciso. (Só, mais uma vez de forma conveniente, esqueceu de me dizer que a cama estava quebrada).
Coincidências não existem, mas por coincidência cheguei na ilha em setembro, mês que começa a temporada de furacões, e foi tranqüilo, nenhum resquício de que os furacões existiam. Em outubro um pequeno tremor de terra que teve como epicentro a Martinica serviu para sacudir um pouco a vida por aqui. De furacões apenas se ouvia falar do Louis, que em 1997 deu uma banda de 48 horas por Saint Martin e sacou 80% dos telhados da ilha, além de criar o campo de golfe de Mullet Bay, onde antes havia uma importante densidade residencial.
Os dias passaram, em dezembro a esperada chegada da Siça, desde quando passamos a ser um casal casado, na prática. Desde então seguimos a vida, Siça descolou um emprego meses depois. Semanas de trampo, sextas-feiras de boêmia, fins de semana de Philisburg (Paraguai Antilhano) e muita praia.
Em final de agosto e por todo setembro passamos a receber constantes e-mails do serviço ‘sxmcyclone’ noticiando estragos importantíssimos no Haiti, em Cuba, New Orleans novamente era alvo de um filhote do Katrina, e Saint Martin como que desviando das rotas dos batizados fenômenos. (Cada tempestade tropical ou furacão recebe um nome, intercalando um nome masculino e um feminino, os que ficam muito famosos têm seu nome aposentado, como a camisa 32 dos Lakers depois de Magic Johnson).
Depois de um raro final de semana completamente cinza e chuvoso, na segunda-feira, 13 de outubro, o correio do ‘sxmcyclone’ nos anuncia o OMAR, furacão de força 1 (o mais tranqüilo de uma graduação de 1 a 5, determinada pela velocidade dos ventos) que nasce na costa da Venezuela (pra mim coisa do Chávez) com rota a nordeste, ou seja, mirou Saint Martin e vinha determinado. Alertas, primeiro o amarelo – indicando ventos fortes e sugerindo certa restrição a passeios marítimos. No site a foto satélite trazia um monstro se formando no mar do Caribe. Depois o alerta laranja, restrição importante a atividades no mar, e cuidado com os ventos. Até que terça-feira, 14/10, durante a noite se intensificaram os avisos de alerta vermelho, restrição total de atividades marítimas, todos para suas casas para proteger-se e protegê-las da chegada do OMAR, que nos faria uma visita na madrugada de quarta para quinta. Previsão de um furacão de categoria 1, com ventos de 65 a 120 km/h com rafaelas (ocasionais rajadas de vento) de até 180 km/h.
Amanhece quarta-feira (15/10), clima de furacão. Grande parte do comércio não abriu ou funcionou até meio-dia, ruas vazias, Os mercados chineses lotados, todos comprando muita água e mantimentos, Eu não sabia muito bem qual seria a intensidade da coisa, bom, isso ninguém sabia. Mas nós brasucas meio que recém chegados, não sabíamos o grau de confinamento, ou de proteção, ou melhor, que medidas adotar. Pelas 9 da manhã chega Pablo (el jefe) no escritório, e em meio a uma olhada no trampo que eu estava fazendo me pergunta – “?Ustedes tienen voile roullon en casa?” – não precisei de um segundo para pensar “Ixi, fodeu”. Neste momento se criou uma facção dos ‘sem’, além dos sem terra e sem teto, nas terras vulneráveis a furacão existem os ‘sem shutter’. Categoria na qual estamos incluídos eu e Simone. Voile Roullon = Shutter = espécie de persiana horizontal que veda as aberturas da casa contra furacões.
Logo tivemos que armar um plano, Simone sairia de Philisburg, onde trabalha, por volta das 3 da tarde, passaria no meu escritório, depois de conseguir comprar a maior quantidade de água possível no caminho. Depois de me pegar passaríamos no ‘china’ comprar mais uma maior quantidade de água possível (quando passamos no china nessa hora esta rolando um mega descarregamento de água). Passaríamos em casa pegar documentos, grana, esvaziar a varanda, colocar fitas nos vidros, tapetes na porta de entrada, desligar chave geral, e aí partiríamos para a casa do Pablo, localizada entre morros (menos vulnerável que a beira-mar), e equipada com shutters e proteções em todos os vidros, além disso algumas janelas são equipadas com vidros basculantes para resistiram a ventos de até 300 km/h.
Quando saímos de casa passamos por carros de polícia ratificando o alerta de confinamento, alerta violeta. Confinamento total e absoluto, ruas vazias, shutters fechados, todos dentro de casa a partir das 17 horas. No caminho caia uma chuva animal, a ilha, que não tem infra-estrutura de drenagem nem pra garoa, estava quase completamente inundada antes mesmo de OMAR chegar.
Chegamos finalmente à casa de Pablo e família (Silvia, sua mulher, e os filhos Malena e Felipe). Logo demos os últimos acabamentos para proteger a casa, ligamos o rádio e a internet para receber os boletins de atualização. A cada boletim Silvia atualizava as coordenadas do OMAR em seu mapa do mar do Caribe, e diretamente se conferia a posição do bicho na foto-satélite. Constatação: Saint Martin estava perfeitamente locado na rota do furacão, mas continuava como categoria 1. Os ventos gradativamente ganhavam força. Como prevíamos uma noite de não sono a cerveja vinha muito bem, comemos, assistimos uma película e meia, até que decidimos esperar a visita na cama, como se pudéssemos dormir em véspera de Natal.
Todos acomodados quando por volta da 1 da madruga (16/10) começa um vento alucinante, extremamente forte, desperto de golpe, e através da janela anti-furacão vejo as pauladas do vento nas árvores e sinto sua velocidade super intensa. O vento não assobiava, cantava em bom tom. Neste momento meu pensamento era ‘c....., pqp, até que ponto isso vai crescer?’ Era algo realmente violento. Neste momento instintivamente todos nos encontramos na casa, meio que para confirmar que aquilo estava passando; confirmado estava. A parada era violenta e não sabíamos o quanto se fortaleceria, ou se logo passaria, o auge estava programado pelos pesquisadores para 6 horas da manhã, 5 horas de intensificação pela frente.
Entre 1 e 3 horas da madruga várias rafaelas rolaram, não havia como pregar o olho, do meu lado Simone dormia o mais tranquilamente possível. A ultima vez que olhei as horas eram exatamente 3:11 da madruga, e daí fui acordar as 7 da matina, havia dormido como um anjo por 4 horas. Ou seja, a visita do OMAR durou pouco mais de 2 horas.
Já de manhã, voltamos todos a nos encontrar na sala da casa, primeira coisa: ver pela internet o que realmente tinha acontecido. O furacão se fortaleceu durante o caminho, tornou-se um furacão de categoria 3, com ventos de 260 km/h, porém assim como os homens, quanto mais forte mais generoso se tornou OMAR, que se distanciou 50 km da costa de Saint Martin, não atingiu diretamente nenhum território. Passou exatemente entre Saint Martin e Saint Croix. Os ventos que chegaram até nós tinham 140 km/h, com rafaelas de até 180 km/h. Segunda ação a tomar, desejar feliz cumpleaños para Silvia, o OMAR fez questão de passar justo em seu aniversário. Data marcante.
A manhã foi de alerta gris, confinamento para limpar as ruas, tirar os fios elétricos do caminho, limpar as casas e arredores. Isso que fizemos. OMAR limpou a área, fez um lindo dia de sol que passamos na piscina, uma beleza. Como a noite foi bastante tensa Simone e eu voltamos para a casa no início da tarde para uma sesta revigorante. Ao chegar tínhamos um pouco de água dentro do apartamento, 1 hora para reorganizarmos tudo, e cama! No outro dia a vida começaria a voltar ao normal.
Em suma, no lado francês da ilha não houve grandes danos, alguma fiação elétrica, algumas casas inundadas, as áreas a beira-mar bastante revoltas e sujas, alguns catamarans de cabeça para baixo. Já no lado holandês o OMAR pegou forte, exatamente na área atingida pelo Louis em 1997. Mullet Bay, que de área residencial passou a ser campo de golfe, deverá ser destinada a um novo uso. Canchas de vôlei de praia talvez. Um dos botecos mais legais da ilha, o Sunset, ao lado do aeroporto onde se podiam ver os aviões pousarem a 100 metros de distância, foi destruído, entre outros picos da night martiniana. Sint Maarten, nome holandês da ilha, deve ficar pelo menos 10 dias sem energia elétrica, a previsão de ter os serviços púbicos operando normalmente é de 2 semanas. Por outro lado, o trabalho de alertas foi bem feito, não houve nenhum registro de mortos ou feridos, apenas uma pessoa desaparecida, mas era ilegal então não dá nada.
Na sexta-feira (17/10) estávamos todos, pelo menos o que tinham energia elétrica de volta ao trabalho. Um dia de ressaca, muito bem encaixado numa sexta-feira. Eu e Pablo fomos almoçar no Da Vinci, onde tem uma pizza da boa, a favorita é a Alexandrie que leva cogumelos e alcachofra. A senhora que nos atendeu é muito simpática, começamos a conversar sobre o OMAR, e ela nos disse que acabara de ouvir no rádio que ELE iria dar meia-volta, deve ter esquecido algo.