Panfletário, energético, radical. Assim é Rem Khoolhaas, o arquiteto que vive toda velocidade, como mostra seu livro sobre a cidade fetiche do século 20
* por Marcelo Rezende
No último mês, o arquiteto holandês Rem Koolhaas experimentou em 30 dias algo que poucos têm a chance de encontrar durante toda a existência: uma vida a jato. Ele esteve em Abu Dhabi (Emirados Árabes) e depois seguiu para a China, atravessando Pequim e Shenzhen, para terminar passando alguns dias em Tóquio. Após mais conversas e reuniões, o retorno para Roterdã, sede do Office for Metropolitan Architecture (OMA), escritório criado por ele e sócios em 1975.
E essa foi apenas a primeira quinzena. Nas semanas seguintes, Berlim, Paris e Nova York. Koolhaas, aos 63 anos, é um ativista, um propagandista do novo. Sua fama não foi construída apenas pelos edifícios, mas por manifestos e ações que colocam em questão dogmas sobre o modo como se vive hoje. Essa ambiciosa trajetória se inicia em 1978 com Nova York Delirante, ensaio já clássico sobre arquitetura, editado agora no Brasil pela Cosac Naify.
Na época em que foi lançado, o texto serviu para mostrar que a era dos arquitetos teóricos, e apaixonados por uma utopia, não havia acabado. Nova York Delirante é um livro sobre cidades. Mas não se trata de um estudo técnico sobre construções ou planos urbanos de uma metrópole que se tornou, no século 20, fetiche mundial. Na verdade, o livro é um manifesto — o subtítulo da obra é exatamente Um Manifesto Retroativo para Manhattan. A obra narra a história social da construção da cidade.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.
Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.
CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.
Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.
Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.
CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.
Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.
Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.
CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.
Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.