quarta-feira, outubro 08, 2008

O FUTURO, A QUEM PERTENCE?

Desde que comecei a prestar alguma atenção no que acontece nesse mundão vejo os países de primeiro mundo (América do Norte e Europa Ocidental) gradualmente transferirem suas fábricas, o trabalho sujo, para o Hemisfério Sul. Grande, muito grande parte para a China e seus correlacionados tigres asiáticos, América Latina, etc. Este movimento me leva a acreditar que o Hemisfério Norte se torna o grande escritório do mundo, onde as decisões são tomadas, onde o tempo é ocupado em pensar o que fazer do planeta, enquanto aqui embaixo o tempo = produção, no sentido mais material da palavra.

Rapidamente menciono a realidade africana, continente mais rico do mundo, fácil, pela concentração de petróleo + diamantes, onde desde a colonização européia foi esculhambado com a definição de territórios a revelia da realidade pré-existente que levou à guerra tribal que não se pode prever quando terminará. Hoje em dia se coloca um presidente ditador, aprovado pelos europeus que detém o poder de extração dos recursos naturais.

No Brasil está todo mundo de olho, empresas e ONG’s estrangeiras já decidem o que fazer, o que se pode ou não na Amazônia.

Acho que está na hora do Sul mandar no mundo. Dominar total. Está facinho.

Brasilzão fecha geral os recursos naturais, manda todo mundo não brasuca embora, Institutos, Coletivos, vão tomar conta da parada, acompanhar de perto de tudo o que rola, madeireiras fora, na Base de Alcantara em um raio de 1000 km, só Forças Armadas do Brasil. Foco na implantação de infra-estrutura-básica rural, o Brasil se tornará um gigantesco produtor de agricultura orgânica. Cada propriedade, 40%  no mínimo de reserva legal, 40% produção vegetal, 10% no máximo de pecuária, 10% permitido para construção.

Na Ásia, as fábricas não mandam mais na da pros USA, as fábricas da Nike, GAP, param tudo. Criam uma marca própria e começam a exportar eles mesmos, chega de escravidão.

Na Índia, os grandes nomes do cinema se mandam para Bollywood (a Hollywood indiana), todo mundo para o país que mais produz cinema no mundo a realizar os filmes de sucesso, os blockbusters. (Spielberg saiu da Paramount e fundará um novo estúdio em sociedade com o grupo indiano de telecomunicações Reliance. A Reliance é propriedade do multimilionário Anil Ambani e uma das maiores empresas de Bollywood --como é conhecida a gigante indústria cinematográfica indiana).

Na África, recomposição territorial das tribos sob um Estado Nacional que compreende todo o território africano. A produção petrolífera e de pedras preciosas gerariam um fundo comunitário para este Estado majoritário. Com um plano de ações básicas definidas democraticamente.

Hummm, democraticamente, acabo de me lembrar do GRANDE exercício democrático brasileiro. Eleições municipais. Meus parabéns a quem votou consciente, mesmo perdendo. Aos que significam a parcela consciente da sociedade faço um lembrete: A democracia ainda não existe. Os grandes grupos e organismos financeiros mundiais determinam tudo o que vai rolar, até onde se ‘democratiza’ o acesso aos insumos básicos da vivência. Muita coisa a realizar. A humanidade está em processo de gestação.

 

P.S. - A princípio iria escrever sobre a crise econômica que está em processo a partir dos USA, algum dos próximos capítulos.

sábado, setembro 27, 2008

O dia é 5 de outubro

Assíduos milhares de leitores do genius-loci!
As eleições para prefeitos e vereadores nas cidades de todo o Brasil estão chegando!
Não obstante, as dúvidas e a falta de interesse e consciência também, frente à esculhambação que anda nossa política.
Os arquitetos e urbanistas que deveriam ser atores importantes na transformação das cidades, não podem cair nessa de "não estou nem aí". Como todos os habitantes devem escolher bem seus repesentantes, os profissionais que estão ligados diretamente com o desenvolvimento das cidades têm por obrigação estar no mínimo conscientes e no melhor dos casos, a par dos problemas e propondo melhorias. Desconfio também que este é um caminho para o maior reconhecimento da profissão, ocupando tempo com essas coisas e não outras, e assim poder ser visto como alguém útil e importante para o desenvolvimento das cidades, pois ja tem gente demais mexendo com perfumarias. Vamos pensar também no que interessa.

Separei aqui, quatro videos interessantes do quadro Marcelo Tas na Zona Eleitoral.
No último espisódio temos até uma entrevista com o arquiteto e urbanista Ciro Pirondi, falando coisas estranhas como: "O amor pela cidade"
Muito bom! e como sempre, bem humorado!
Se divirtam-se e bom voto!


Episódio 1
Como surgiram as cidades?


Episódio 2
O prefeito do maior prédio do Brasil


Episódio 3
No que é preciso pensar para escolher o candidato?


Episódio 4
Como cuidar das cidades?

segunda-feira, setembro 15, 2008

Arquitetura da Felicidade

Certamente, ou não,... muitos ja se pergutaram:
Qual a verdadeira razão de alguém almejar morar hoje numa casa da era pré-industrial?
Boa né? e qual é a razão?
Então,... por que atualmente gosta-se tanto dos elementos gregos, romanos,...de casas tipo chalé, tipo moinho holândes, tipo enxaimel,... tipo tudo, menos o que é do nosso tempo..., justo na época da explosão digital, da informação , os celulares,...ora, até as geladeiras se conectam à internet!, a nanotecnologia, o recente acelerador de partículas a fim de provar a teoria do Big-bang, ( essa matô né!) enfim,..qual a razão?
Ora meu caro! porque acham bonito,... dá status,..essas coisas de gente descolada,.. e além do mais, ... gosto não se discute!
Humm, será mesmo?
O filósofo Alain de Botton no seu livro arquitetura da felicidade, que deu origem ao dvd, abre um cenário interessante e rico na busca de entendermos melhor esses e outros fenômenos que habitam a cabeça das pessoas no quesito arquitetônico e a infernal preferência pelo, conforme ele mesmo diz, neo-vernacular!
Segue um dos vídeos que estão pendurados no youtube:


domingo, setembro 14, 2008

Ora beira do caos, ora eira da paz

Em torno a panacéia arquitetônica de toda ordem, acho até natural a vista turvar e perder o foco. Esfregamos os olhos, limpamos os óculos e ainda essa imagem blur, inquieta, incômoda, resiste, ...
Quando isso acontece, o coração pode reconfortar-se abrindo um livrinho, quase um pocket, muito singelo mesmo, escrito na capa somente, arquitetura. São palavras do Dr. Lúcio à gente moça do ensino secundário, em encomenda feita pelo Ministério da Educação para integrar uma coleção de dez livrinhos sobre cultura nunca antes comercializados.
Na orelha alguns recados de Lucio:

“O Brasil é um país precursor, dará o seu recado no tempo certo.”

”...recusar subserviência, inclusive cultural, mas absorver e assimilar a inovação alheia.”

“Apesar dos contrastes e das circunstâncias, o país, graças à força viva que o impele, está fadado a um grande destino porque não tem vocação para a mediocridade.O Brasil jamais será um país medíocre.”

Bonito!,... a quanto tempo eu não ouvia algo assim,...

E olhem só, separei esse trecho em que o próprio Lúcio descreve seu coração reconfortado:

“Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpresa, a gente como que se encontra, fica contente, feliz, e se lembra de coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós.” (1929)

Praticamente um acalanto para o espírito.

segunda-feira, setembro 08, 2008

BRAZILIAN TOWN - novo souvenir arquitetônico na estante dos Emirados


A bola da vez por lá é verde-amarela. Brasil!!!!
Lendo despretenciosamente o caderno de imóveis da Gazeta do Povo, noto uma matéria que poderia até passar despercebida pelo tamanho, não fosse o título: Prédio em forma de Pão de Açúcar. Gol!!!!
Esse tipo de chamada até quebra a monotonia desses cadernos imobiliários que ultimamente só tem apresentado variações de edifícios inspirados no palácio de Versalhes.
Que tal um Maison Queops residence pra variar um pouco?
Uns hieroglifos muito descolados e coisa e tal,...acho que dá samba!

Não mais que isso,... a intenção arquitetônica foi de revestir o empreendimento com a identidade brasileira, através da sutil referência ao Pão de Açúcar e não obstante com a arquitetura do Oscarito ( Pampulha) . - Muito bem sacado!

Vejamos:
- Terreno com 168 mil metros quadrados
- 160 mil de área construída (apertadinho)
- Na torre maior com 20 pavimentos, shopping, supermercado, restaurantes,..., na outra com 12 pavimentos, flats de 69 metros quadrados a U$$901 mil, (cerca de 1,5 milhão) quase R$ 22 000,00 o metro quadrado.
Acho que ta bom!

Facilitando a vida, pra comprar é aqui.

Numa leve garimpagem que fiz na mega teia, descolei essa implantação de fazer morrer de inveja qualquer confeiteira.
Acho que o bolo da Indepêndencia está pronto, não tá?
Pra quem prestou atenção na fachada e achou que me esqueci de comentar um mero detalhe,.. aí vai,.. No topo de cada torre, uma iluminada praça de alimentação com vista panorâmica e interligadas por um bondinho, o quê? isso mesmo, bondinho, quenenque fosse no Rio!! Inauguração para 2010.

sábado, agosto 23, 2008

A Arte do Sanaa - Bravo online

Quais as relações entre a arquitetura e a arte hoje? Uma mostra em cartaz em São Paulo, sobre o escritório japonês Sanaa, responsável, entre outros, pelo projeto do prédio do New Museum, em Nova York, mostra que cada vez mais as duas áreas se relacionam

Ao visitar a exposição Sejima + Nishizawa/ Sanaa: Flexibilidade, Transparência, Amplitude, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, na cidade de São Paulo, a impressão que se tem, apesar de ser uma mostra de projetos da firma japonesa Sanaa, dos arquitetos Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, é que ali se exibe o trabalho de uma dupla de artistas plásticos.
Já na entrada, no grande salão, uma maquete de 10 metros por 7, toda branca, espalha-se pelo chão e mostra, em detalhes, como será o Learning Center da Escola Politécnica Federal de Lausanne. A complexa estrutura, que divide seus espaços por meio das ondulações do próprio piso e do teto, tem o início de suas obras (começo de 2008) ilustrado em 28 fotografias acomodadas na sala menor do instituto.
Nas outras duas salas - que se diferenciam por exibir, em uma, maquetes e, em outra, fotos, desenhos e vídeos -, o tratamento dado às peças e a maneira de dispô-las constroem um impacto poderoso no público. A primeira, por exemplo, convida a um passeio surreal em meio a maquetes de prédios assinados pela dupla, marcados pelas estruturas finas e por transparências, como as caixas empilhadas do New Museum, em Nova York, e o projeto do anexo do Louvre, em Lens.
"Para mim, uma é a sala de esculturas (maquetes), e a outra, de pinturas (fotos, desenhos e vídeos)", diz Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake, que negociou a vinda dos arquitetos com a curadora da exposição, a japonesa Yuko Hasegawa, por cerca de dois anos. "Não é fácil montar uma mostra como esta, mas a meta é ter a arquitetura dentro do nosso espaço pelo menos uma vez ao ano", conta.
As relações entre conceitos da arquitetura e das artes plásticas sempre existiram. Mas o que se vê hoje é uma forte simbiose, em que as mesmas idéias transitam entre os dois meios e uma área inspira a outra. Artistas como o norte-americano Olafur Eliasson e a brasileira Lucia Koch, por exemplo, usam a arquitetura como matéria prima de suas obras, enquanto que firmas de arquitetura, como a suíça Herzog & de Meuron (responsável, entre outros, pelo Estádio Nacional de Pequim, "o ninho de pássaro") e o próprio Sanaa, usam de conceitos da arte contemporânea em seus projetos.
Uma das maiores preocupações de Sejima e Nishizawa é encontrar maneiras de propor certos tipos de relações entre os indivíduos que ocupam um mesmo edifício, entre as pessoas e o próprio prédio, e entre a construção e seus arredores. Assim, criam casas em que todos os cômodos se comunicam, museus sem circuitos de visitas pré-definidos e paredes transparentes, que deixam ver, de dentro, o verde das árvores do entorno. Essas idéias, nada mais são que alguns dos conceitos da arte de hoje aplicados na prática.
Sejima + Nishizawa/ Sanaa: Flexibilidade, Transparência, Amplitude demonstra, assim, não só as intersecções entre arte e arquitetura, mas prova também a importância da arquitetura, hoje, para as artes plásticas. E vice-versa.

domingo, junho 22, 2008

Entrevista com Helio Piñon

A DOUTRINA, A TEORIA E A PRÁTICA
PARA HELIO PIÑÓN, A INOVAÇÃO É IRRELEVANTE E A ADOÇÃO DO CONCEITO COMO CRITÉRIO DE AÇÃO, DESASTROSA
POR VALENTINA FIGUEROLA FOTO MARCELO SCANDAROLI

Pesquisador, professor, crítico e arquiteto. Essas são algumas das atribuições do espanhol Helio Piñón, que esteve recentemente no Brasil a convite do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura (Propar) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em Porto Alegre, na UFRGS, e em São Paulo, na Escola da Cidade, deu palestras e ministrou o curso Projeto, Modernidade e Aprendizado. Dono de opiniões muitas vezes radicais, fundamentadas em um discurso claro e coeso, Piñón acredita que a arquitetura, sobretudo a que se pratica desde a década de 70, vive um processo de intensa decadência, marcada pela proliferação de "modismos" que são incentivados pelas faculdades de arquitetura e revistas especializadas no assunto. "Faz 30 anos que a arquitetura se converteu num elemento de consumo midiático e econômico", declara o arquiteto, que é autor de mais de 21 livros sobre arquitetura, um deles sobre Paulo Mendes da Rocha (Paulo Mendes da Rocha, Coleção Documentos de Arquitetura Moderna, Romano Guerra Editora). Em 2000, fundou o Laboratório de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona, onde desenvolve sua atividade profissional e investigativa. O lançamento do livro A teoria do projeto, pela editora Livraria do Arquiteto, traduzido por Edson Mahfuz, foi um dos principais motivos da visita de Piñón ao País. "O livro responde às grandes questões do projeto de arquitetura, abordadas com a perspectiva de quem compartilhou, durante 35 anos, a prática profissional com a reflexão e a docência", diz Piñón. Nascido na cidade de Onda, em 1942, é autor de numerosos projetos na Espanha e em outros países, realizados em conjunto com Albert Viaplana, como a Praça dos Países Catalães e o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona.

aU COMO SURGIU A IDÉIA DE PUBLICAR O LIVRO A TEORIA DO PROJETO NO BRASIL?HELIO Piñón Foi uma iniciativa de meu amigo Edson Mahfuz, com quem mantenho uma relação pessoal e epistolar há anos. Ele me propôs traduzir o texto para o português, o que, conhecendo a seriedade com que aborda seus trabalhos, me pareceu um luxo: na realidade, é a única maneira de abordar um projeto dessa natureza, se quer que as idéias não acabem desvirtuadas por efeito da transposição lingüística. Enviava-me os capítulos à medida que os traduzia e devo confessar: praticamente não encontrei objeções a seu trabalho. Quero aproveitar para fazer público meu reconhecimento a Mahfuz e agradecer o projeto de traduzir outros textos complementares ao de Teoria do projeto, da mesma coleção.

aU QUE LIÇÕES O LEITOR PODERÁ EXTRAIR DO LIVRO?
Piñón Entendo a teoria como a tentativa de resolver, mediante a reflexão, aquelas questões sem resposta no sentido comum; nada a ver, portanto, com a doutrina, que tem um propósito didático baseado em um conjunto de princípios que definem o estado de opinião de alguém sobre algum assunto. A diferença não está, portanto, no grau de subjetividade – a teoria é subjetiva, posto que é resposta de um sujeito a um problema – mas sim no propósito da reflexão: o da teoria é adquirir conhecimento, o da doutrina, difundi-lo. Em Teoria do projeto tratei de encontrar resposta para as questões estéticas e operacionais levantadas pelo projeto moderno na arquitetura. Há 50 anos a arquitetura moderna era hegemônica, de modo que se podia aprender apenas olhando as revistas que publicavam as obras fundamentais. Mas a proliferação de concepções surgidas ao longo das últimas décadas faz com que o nível de consciência deva ser maior. É aí onde acredito que meu livro pode resultar útil, porque esclarece o sentido de uma arquitetura real que, pelo que vejo, volta a interessar a uma maioria de arquitetos comprometidos com sua atividade e com a história.

aU O LIVRO SE BASEIA EM PROJETOS DE SUA AUTORIA? QUAIS OS CRITÉRIOS UTILIZADOS PARA ESCOLHÊ-LOS?
Piñón Não, o livro não está baseado em nenhum projeto específico, mas em toda a arquitetura que me interessou – e da qual aprendi e continuo aprendendo – desde que comecei meus estudos de arquitetura, há quase 50 anos. Na realidade, os temas que abordo no livro são os temas da arquitetura em geral, mas com a particularidade de que não foram retirados de um livro, e nem de discursos alheios, mas sim da experiência direta da arquitetura. Os grandes temas do livro respondem às grandes questões do projeto de arquitetura, abordadas da perspectiva de quem vivenciou durante 35 anos a prática profissional com a reflexão e a docência. A modernidade, ou seja, a dialética entre a forma e o olhar, proporciona a perspectiva com a qual se aborda a técnica, o lugar, o tempo e a sociedade.

aU O SENHOR DIZ QUE "A ARQUITETURA NÃO DEVE SER NOVA PARA SER BOA", E QUE "A ATUAL OBSESSÃO PELA INOVAÇÃO É ALGO NOCIVO". ESSA INOVAÇÃO A QUE O SENHOR SE REFERE SERIA TECNOLÓGICA OU FORMAL? EXISTE ALGUMA CIRCUNSTÂNCIA EM QUE A INOVAÇÃO É AUTÊNTICA E BEM-VINDA NA ARQUITETURA?
Piñón O problema da inovação é que ela se associa a uma questão mal colocada. A inovação não é boa e nem má, simplesmente é irrelevante para a qualidade de uma obra de arquitetura, ou de arte, em geral. Aliás, situar o propósito da inovação aliena a prática do projeto, de modo que a surpresa ocupa o lugar que deveria ocupar a qualidade. Isto serve tanto para a inovação tecnológica como para a formal. A qualidade essencial da arquitetura é a identidade da obra, definida como conjunto de qualidades que fazem que uma obra chegue a ser algo mais do que um amassilho de intenções e desejos. Se uma obra de arquitetura chega a ter uma identidade própria como universo ordenado – o que não é fácil e nem óbvio – provavelmente será inovadora no sentido estrito, porque a autêntica inovação é a que afeta a configuração do edifício, não aquela que se limita a renovar sua aparência.

aU O SENHOR DIZ QUE SE AS FACULDADES FECHASSEM, A QUALIDADE DA ARQUITETURA SERIA MELHOR. POR QUE, EM SUA OPINIÃO, AS escolas ESTÃO LEGITIMANDO A DECADÊNCIA DA ARQUITETURA?
Piñón As faculdades começaram a legitimar a decadência da arquitetura no momento em que assumiram o pós-modernismo sem advertir seu efeito perverso sobre o que tratavam de ensinar. Agora assumem a redução do arquitetônico ao midiático, sem explicar claramente que grande parte do que preenche as revistas atualmente não tem nada a ver com a arquitetura. O problema é que grande parte dos professores não tem nenhuma alternativa senão oferecer a troca de modas na qual se baseia a arquitetura dos últimos 40 anos. E eu diria que nem são conscientes desse fenômeno.
aU QUAL SERIA, ENTÃO, A METODOLOGIA PEDAGÓGICA IDEAL? O SENHOR A PRATICA?
Piñón Não me atrevo a falar de metodologia a respeito de uma prática que de nenhum modo pode ser considerada científica e que, aliás, tem uma forte dose de intuição. De qualquer maneira, o procedimento que utilizo há duas décadas, e que ofereço a quem o considere razoável, é trabalhar com a arquitetura como material de projeto, ou seja, aliviar o aluno da necessidade de elaborar sua própria matéria-prima, tarefa para a qual não está preparado e, em vez disso, fazê-lo trabalhar com arquiteturas exemplares. Na realidade, a arquitetura sempre foi aprendida dos edifícios. Somente há 40 anos é que se trata de ensiná-la mediante conceitos, com os resultados que todo mundo conhece. Minha atitude diante da arquitetura é similar à que tinha Bach diante da música, quando recorria às melodias de Haendel, Vivaldi ou às suas próprias, tendo a obrigação de compor uma cantata semanal, em seu estágio de Kantor na igreja de Santo Tomás de Leipzig.

aU MUITOS ESTUDANTES DE ARQUITETURA E RECÉM-FORMADOS PERCEBEM O DISTANCIAMENTO ENTRE O DISCURSO DOS PROFESSORES E SUAS PRÁTICAS PROFISSIONAIS. COMO PROFESSOR, ARQUITETO E CRÍTICO, O SENHOR TRANSITA CONSTANTEMENTE PELOS ÂMBITOS PRÁTICO E TEÓRICO. COMO MANTÉM A COERÊNCIA NESSE PROCESSO EM UM MUNDO ONDE A ARQUITETURA É OBJETO DE CONSUMO?
Piñón Manter a coerência entre dois universos que praticamente se ignoram – o da arquitetura e o de sua prática social – é impossível. Em todo o caso, pode-se manter a coerência pessoal, ou seja, entender a teoria como a intenção de resolver por meio da reflexão aquelas questões que não têm explicação mediante o sentido comum. E entender a prática como uma atividade comprometida com a representação da construção, e não com a materialização, a qualquer preço, de uma série de caprichos determinados pelo estado de ânimo.

aU NO EDIFÍCIO DA PREFEITURA DE BENISSA, EM ALICANTE, A MALHA ESTRUTURAL DO ESTACIONAMENTO FOI O PONTO DE PARTIDA PARA O DESENVOLVIMENTO DO PROJETO. EXPLIQUE O PORQUÊ DESSA DECISÃO.
Piñón Não. A malha estrutural não foi o modo de desenvolver o projeto entendido como concepção, senão o modo de começar a defini-lo como materialidade. Não creio que haja outro modo de fazê-lo, a não ser que o arquiteto seja tão irresponsável que não se importe com a baixa eficiência do estacionamento. De qualquer maneira, no Laboratório (de Arquitetura da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona) nos acostumamos a trabalhar sobre uma pauta sistemática por razões tanto materiais quanto formais: na arquitetura moderna não se dispõe da garantia de sistematicidade proporcionada pelas ordens e pelos tipos clássicos da arquitetura classicista, de modo que se deve consegui-la com o projeto. Desde que tenhamos de escolher uma unidade modular, parece razoável utilizar uma retícula estrutural que, ajustando-se às medidas de um estacionamento, seja compatível com o resto das atividades do edifício.

aU EM SUA OPINIÃO, A ARQUITETURA DAS ÚLTIMAS DÉCADAS, SOBRETUDO A DOS ÚLTIMOS 50 ANOS, É VISUALMENTE BANAL, E ISSO ESTARIA ASSOCIADO AO "ECLIPSE DO OLHAR". ESSE TERMO SE REFERE À PERDA DE CAPACIDADE VISUAL E ANALÍTICA DO ARQUITETO?
Piñón Os arquitetos sabiam ao que se ater até os anos 70, quando dispunham de um modo de conceber, de elementos e critérios que atuavam como matéria-prima para os seus projetos. Assim se atingiu, em setores amplos da arquitetura internacional, um nível de qualidade excelente. O chamado Estilo Internacional alcançou seu ápice nestes anos. O abandono dos critérios de modernidade, sem dispor de outros valores para reposição, fez com que os arquitetos que liderassem "a reforma" propusessem o conceito como critério de ação e, ao mesmo tempo, como instância de verificação do projeto. No futuro, o conceito não só proporcionaria o estímulo do projeto, como também serviria para comprovar o resultado. Se o projeto se ajusta ao conceito que o provocou, tudo bem, caso contrário, tudo mal. Essa solução resultou muito cômoda para a maioria dos arquitetos, mas foi nefasta para a arquitetura. A renúncia da dimensão cognoscitiva do olhar deu possibilidades de projetar com certa confiança a pessoas não especialmente dotadas para a arquitetura, o que provocou uma modificação "de valores e de poderes" que pairam sobre a situação atual.

aU FALA-SE MUITO SOBRE ARQUITETURA ATUALMENTE, MAS O SENHOR NÃO CONSIDERA ISSO BOM. POR QUÊ?
Piñón Faz 30 anos que a arquitetura se converteu em um elemento mais do consumo midiático e econômico. Por exemplo, há muito mais revistas do que há 40 anos, mas não conheço nenhuma que esteja tão bem considerada como algumas que havia quando comecei a carreira. O falar de arquitetura, nos termos em que se faz, tem, em parte, um efeito tranqüilizante sobre as consciências que inibe a capacidade crítica, tanto de arquitetos como de cidadãos e, por outro lado, cria a ficção de que a boa arquitetura é aquela sobre a qual se fala, o que não pode estar mais longe da realidade. Começarei a duvidar dos métodos para curar o câncer de próstata, por exemplo, quando os jornais e semanários os tratem com a freqüência – e a frivolidade – com que faz décadas se trata a arquitetura.

quinta-feira, maio 08, 2008

''Um projeto arquitetônico nunca está acabado''


Com inauguração prevista para maio, a sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, revela ao país as formas e o pensamento do português Álvaro Siza, um dos maiores arquitetos vivos
* por Gabriela Motta


O português Álvaro Siza acredita que projetar um museu, biblioteca ou igreja é como propor uma utopia para o mundo. Com um currículo extenso, o arquiteto nasceu em 1933, na cidade de Matosinhos. Desde a década de 1960, vem assinando uma série de criações que o levaram, em 1992, a conquistar o Pritzker Prize, a maior premiação da arquitetura. Em maio, um de seus trabalhos será oficialmente inaugurado em Porto Alegre. É o prédio da Fundação Iberê Camargo, cujo projeto ganhou em 2002 o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza, uma das mais concorridas do planeta. O prédio reunirá a produção do pintor gaúcho morto em agosto de 1994. Também servirá de espaço de exposições temporárias e outros eventos. Ao conceber a sede da fundação, Siza fez questão de levar em conta essas múltiplas exigências, justamente por acreditar que "as atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação". Tal conceito também está presente em algumas de suas obras mais famosas, como o celebrado Museu Serralves, no Porto, e o Edifício Bonjour Tristesse, em Berlim. A seguir, um pouco do pensamento de um dos principais arquitetos contemporâneos, com quem BRAVO! conversou em Porto Alegre.

BRAVO!: Por que o senhor considera seus projetos como utópicos?
Álvaro Siza: Porque, para mim, um edifício deve responderà sua função com muito rigor, mas ao mesmo tempo deve ter a capacidade de se desligar dessa função. É nesse sentido que encaro a arquitetura como utópica só que se trata de uma utopia com os pés na terra. Veja, por exemplo, um convento. É feito para uma comunidade que possui regras de comportamento muito estritas. No entanto, ao longo dos anos, os conventos vêm sendo utilizados para tudo: como bibliotecas, escolas, hotéis. Tudo o que se possa imaginar cabe dentro de um convento. Ele tem a capacidade de desempenhar inúmeras funções, além da propriamente religiosa, e assim durar no tempo, não se tornar obsoleto. O meu propósito é exatamente este: o de investir na continuidade dos projetos. Não tenho a idéia de que um edifício deva durar 20 anos e, depois, ser posto abaixo.

O senhor acredita que o brasileiro Oscar Niemeyer seja também "um utópico com os pés no chão"?
Ainda há pouco li uma entrevista de Niemeyer numa revista em Portugal. Lá pelas tantas, falando de um edifício histórico, não lembro qual, ele disse: "É um edifício muito moderno. Foi construído no século tal, mas é moderno". Essa maneira de ver as coisas revela justamente a capacidade de se desprender das circunstâncias para buscar uma influência maior na vida das cidades.

E como o senhor se sente realizando um museu no Brasil, onde Niemeyer é tão onipresente? Sinto-me bem! Os edifícios no Brasil são belos. E os de Niemeyer, não só os dele, mas os dele em especial, estão muito relacionados com a paisagem do país: Ipanema, o Corcovado, o Pão de Açúcar, aquelas curvas todas. Quem nasce num meio assim absorve isso.

Hoje a arquitetura é discutida por todos em decorrência de projetos de impacto. O que se perde com isso?
De fato, fala-se muito sobre arquitetura também em Portugal. Aliás, é relativamente recente a entrada do assunto nos jornais diários portugueses. No entanto, ainda que haja divulgação, nem sempre essa divulgação me parece bem feita, por estar bastante vulnerável a fatos externos, que não dizem respeito à arquitetura em si mesma, como interesses políticos e econômicos. De qualquer maneira, acho bom que se discuta o tema, porque a arquitetura não é feita para a contemplação de meia dúzia de pessoas.


Qual a sua relação com os projetos quando acabam?
Vou para casa.


E não volta?
Diversas vezes, não volto. Em outras ocasiões, quando volto, fico desgostoso. Projetar é algo muito intenso, exigente e absorvente. Há mesmo que se fazer um esforço de desprendimento para construir e inaugurar um edifício. Custa sempre muito quando se acaba um projeto, porque, na verdade, ele nunca está acabado. Ainda assim, deve-se aceitar que um projeto, no final das contas, faz parte do patrimônio público e, portanto, segue sua vida própria. Isso, claro, se tiver força, estrutura para agüentar o passar dos anos e as modificações que nele se processam. Se não tiver, o projeto também demonstra a sua fragilidade, a sua inviabilidade.

O senhor conhecia a obra de Iberê Camargo antes de ser chamado para projetar a fundação?
Não conhecia a obra dele nem Porto Alegre. Na verdade, o Iberê é pouco conhecido em Portugal. Claro, existem algumas pessoas, críticos de arte, que o conhecem. Eu realmente não o conhecia o que é uma vergonha, de qualquer maneira. Mas a culpa não é só minha. Não há muita informação sobre ele em Portugal e mesmo na Europa.

Em que medida o projeto reflete a obra de Iberê?
Não reflete tanto, não. Até porque a obra de Iberê, como a de qualquer artista que tenha uma coleção, não é algo muito estanque, fechado. Ao longo do tempo, por exemplo, será confrontada com o trabalho de artistas que foram próximos a ele ou que o influenciaram. E um museu precisa levar em conta essa dinâmica. Assim, não é possível desenhar a sala tal para o quadro tal. O projeto arquitetônico deve exibir uma certa neutralidade, uma certa flexibilidade, e permitir que se montem exposições de acordo com a sensibilidade e os objetivos de quem as organiza. Atividades culturais não são compatíveis com uma idéia de fixação.

GABRIELA MOTTA é crítica e curadora, autora de Entre Olhares e Leituras: Uma Abordagem da Bienal do Mercosul (Zouk Editora, 2007).

terça-feira, maio 06, 2008

"Diziam que meus projetos eram malucos e caros", diz arquiteto chinês

RAUL JUSTE LORESda Folha de S.Paulo, em Pequim

Na terra onde o Estádio Olímpico foi desenhado por suíços; o aeroporto internacional, por um inglês; o ginásio da natação, por australianos; e a nova ópera, por um francês, finalmente um chinês conseguiu espaço entre as mais badaladas estrelas da arquitetura.
Divulgação
Arquiteto projetou prédio no Canadá, apelidado de Marilyn Monroe
Aos 31, Ma Yansong virou celebridade no seu país ao fazer o caminho inverso: vencer concursos internacionais na Dinamarca, no Japão e na Malásia e construir duas torres de mais de 50 andares no Canadá, tão cheias de curvas que foram apelidadas de Marilyn Monroe.
Após estudar em Yale com a premiada arquiteta iraquiana Zaha Hadid, com quem trabalhou dois anos em Londres, Ma voltou à China para desenvolver um projeto nunca construído. Foi quando abriu seu escritório, Mad, com um discípulo. Quatro anos depois, tem uma equipe de 40 arquitetos.
"Não conheço um único arquiteto desempregado na China", disse Ma à Folha, em seu belo e despojado escritório, em uma área popular de Pequim que ainda não foi destruída para dar espaço a arranha-céus.A história de Ma revela o boom arquitetônico do país, onde 50% do cimento mundial é consumido. Há 3.000 prédios em construção apenas na capital chinesa. "Hoje não tenho tempo de aceitar as dezenas de convites que recebo, mas só fiz sucesso aqui depois de ganhar o concurso no Canadá", diz Ma, confirmando que santo de casa também sofre na China.
"Antes diziam que meus projetos eram malucos e caros."
Seu mais novo projeto é uma torre de 385 m de altura, mais que o dobro do edifício Itália paulistano, para a gigante siderúrgica Sinosteel, no porto de Tianjin, a 120 km da capital. O revestimento do prédio lembra uma colméia -por conta dos "favos" por onde entra a luz.
Ele foi convidado a desenhar um novo centro financeiro, com mais de 20 edifícios, para Beihai, no sul da China. "Se o cliente confia, você pode ser ambicioso. As autoridades chinesas andam competindo por quem faz os prédios mais audaciosos, mais arriscados ou os arranha-céus mais altos."
Ma é crítico de boa parte dos arranha-céus de Pequim, "cada vez mais iguais, caixotões sem personalidade". Seus projetos ousam nas curvas e em geometrias arriscadas, "macios", segundo ele, onde se nota a influência de sua mentora Hadid.
Curvas presentes em até seus primeiros -e pequenos- projetos, como o clube Hong Luo, centro de convivência construído em 2005 em um condomínio de Pequim.

Tiananmen verde
Seu projeto mais polêmico e discutido na China ultimamente, porém, tem poucas chances de ser realizado, segundo o próprio arquiteto. É deixar "verde" a praça Tiananmen, da Paz Celestial, a maior do mundo, palco da violenta repressão da ditadura comunista em 1989.
A praça é sede do Congresso do Povo e entrada da Cidade Proibida, complexo de residências imperiais, onde hoje fica o gigante retrato do líder comunista Mao Tsé-Tung. "Mao a construiu com inspiração na praça Vermelha, de Moscou. Mas o país mudou, não temos mais paradas militares lá, a Tiananmen é lugar de passagem, os pequineses não a usam."
Em seu projeto, a praça é revestida de árvores, fontes, espaços para cultura e até um pequeno morro. "Fiz o projeto para provocar, colocar o pequinês a pensar sobre o uso da cidade, e as pessoas adoram árvores. Quem sabe um dia?", sonha.

Jovens no Brasil
Ma diz não ter fórmula para virar arquiteto internacional. "Veja Niemeyer: ele não imitou ninguém, começou construindo no Brasil e é um nome internacional." Ele conheceu obras de Niemeyer, como o Copan (São Paulo) e a casa de Canoas (Rio) no mês passado, quando esteve no Brasil para o 6º Fórum Internacional de Arquitetura e Construção. "Gostei das curvas do Copan e daquela galeria aberta para a rua."
Ao ser ciceroneado pelas obras de Niemeyer, estranhou não ver obras de arquitetos jovens. "Eles não estão construindo? Deveriam vir para a China! É difícil conseguir bons arquitetos, há falta deles!"

sexta-feira, maio 02, 2008

A saga de Nova York (Bravo Online)

Panfletário, energético, radical. Assim é Rem Khoolhaas, o arquiteto que vive toda velocidade, como mostra seu livro sobre a cidade fetiche do século 20
* por Marcelo Rezende


No último mês, o arquiteto holandês Rem Koolhaas experimentou em 30 dias algo que poucos têm a chance de encontrar durante toda a existência: uma vida a jato. Ele esteve em Abu Dhabi (Emirados Árabes) e depois seguiu para a China, atravessando Pequim e Shenzhen, para terminar passando alguns dias em Tóquio. Após mais conversas e reuniões, o retorno para Roterdã, sede do Office for Metropolitan Architecture (OMA), escritório criado por ele e sócios em 1975.
E essa foi apenas a primeira quinzena. Nas semanas seguintes, Berlim, Paris e Nova York. Koolhaas, aos 63 anos, é um ativista, um propagandista do novo. Sua fama não foi construída apenas pelos edifícios, mas por manifestos e ações que colocam em questão dogmas sobre o modo como se vive hoje. Essa ambiciosa trajetória se inicia em 1978 com Nova York Delirante, ensaio já clássico sobre arquitetura, editado agora no Brasil pela Cosac Naify.
Na época em que foi lançado, o texto serviu para mostrar que a era dos arquitetos teóricos, e apaixonados por uma utopia, não havia acabado. Nova York Delirante é um livro sobre cidades. Mas não se trata de um estudo técnico sobre construções ou planos urbanos de uma metrópole que se tornou, no século 20, fetiche mundial. Na verdade, o livro é um manifesto — o subtítulo da obra é exatamente Um Manifesto Retroativo para Manhattan. A obra narra a história social da construção da cidade.


Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.

Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.

CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.

Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.

Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.

CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.

Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.
Mas, mais do que apenas dados, o autor oferece idéias, porque seu interesse está em pensar de que modo foi possível imaginar Manhattan e quem foram aqueles que a imaginaram. O livro celebra a cidade, defendendo ser ela o marco zero das metrópoles do mundo. Para Koolhaas, Manhattan — em razão de sua infindável variedade de atividades humanas — criou para o mundo o "manhattanismo".
A expressão define um aglomerado urbano marcado pelo esplendor e miséria convivendo lado a lado e pelo desejo de possuir uma cultura e atitude modernas. Toda metrópole é um caso de manhattanismo. Em todo manifesto, parte do trabalho é conseguir instaurar uma atmosfera de combate e inquietação, fazendoseu encontro com a arquitetura aconteceu como conseqüência de seu fracasso no cinema. Até os 24 anos, Koolhaas trabalhava como jornalista para um diário holandês no qual produzia, sobretudo, perfis de atores e cineastas — com predileção pelo cinema italiano.
Essa fascinação pelos filmes o levou a tentar criar os seus próprios, e assim ele decidiu se tornar roteirista. Um roteiro escrito por ele, White Slave (Escrava Branca), foi filmado em 1969 pelo diretor René Daalder. O filme foi um fracasso, e assim as portas do mercado cinematográfico ficaram fechadas para ele. Koolhaas, então com 25 anos, partiu para Londres e iniciou um curso de arquitetura.
Todos os anos, o OMA recebe uma média de mil pedidos de emprego. No escritório, cerca de cem arquitetos trabalham na criação de projetos, e são profissionais vindos das Américas, da Ásia ou da África. Koolhaas é um entusiasta da globalização, e no seu ramo isso faz todo sentido. Ele pertence a uma geração de arquitetos "transnacionais". Isto é, estão presentes em várias regiões do planeta. Os o leitor mudar de ponto de vista — pela intensidade das frases — sobre algo tido como verdade.
Koolhaas dá conta da tarefa e se mostra um panfl etário excitante: "O edifício de cem andares precisa de uma arqueologia de nanicos para prendê-lo à terra, para se manter convicto de sua própria escala", escreve ele em Nova York Delirante. Mais frases se seguem, sua retórica é intensa. "Arquitetura = imposição ao mundo de estruturas que ele nunca pediu e que antes existiam apenas como nuvens conjecturais no espírito de seus criadores"; "Aquilo de que Noé precisava era concreto armado.
Aquilo de que a arquitetura moderna precisa é um dilúvio." No espaço ocupado por Koolhaas, ele se comporta como orquestra e compositor de uma ruidosa sinfonia sobre o caos do século 20.
CINEMA ITALIANO
Rem Koolhaas nasceu em Roterdã, e, apesar de sua fama e conquistas como arquiteto (foi vencedor do prêmio máximo da área, o Pritzker Architecture Prize, em 2000), projetos executados pelo OMA podem ser vistos no México (Torre Bicentenário), Portugal (Casa da Música do Porto), Alemanha (embaixada da Holanda, em Berlim), Estados Unidos (biblioteca central de Seattle) ou na China, onde será erguida a sede da CCTV, a rede de televisão chinesa.
Mas, ao contrário de seus competidores nas concorrências internacionais (Frank Gehry, Zaha Hadid ou Daniel Libeskind, entre outros), Koolhaas não se vê como artista ou inventor solitário de formas arquitetônicas capazes de eletrizar o público. Sua arquitetura é resultado de uma empreitada coletiva, e ele acredita que seu pensamento sobre o espaço e o homem pode estar em toda parte.
O OMA cria prédios, mas assume também o conceito dos desfiles da marca Prada, em Milão, ou uma estratégia curatorial para o museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. São joint ventures culturais. Essa posição combativa tem criado no circuito mundial forte oposição aos mandamentos de Koolhaas, que parece não apenas se mover a jato, mas produzir na mesma velocidade. Em alguns momentos, é difícil fazer a separação entre a força de seu pensamento e o poder do marketing pessoal.
Seus oponentes afirmam não ser ele realmente um criador, mas apenas um crítico. Seus livros, segundo esse raciocínio, ocupariam apenas o vácuo deixado pelo déficit de talento arquitetônico, e sua estratégia seria vender as idéias mais banais como algo "sensacional".
Mas, em um cenário no qual o discurso da "arquitetura do espetáculo" é se aproximar da arte, fazendo de edifícios, museus ou monumentos esculturas para o encantamento do público — deixando de lado implicações sociais, econômicas e políticas ao se construir ou demolir algo —, Rem Koolhaas é uma intensa e atrativa nota dissonante. "Se você tem uma reputação, pode sentar-se sobre ela para que dure. Ou pode tentar fazer algumas coisas com ela", diz, esclarecendo ser o risco melhor do que a segurança. Sua reputação pode ser mesmo um castelo de cartas, mas Koolhaas sabe que, mesmo frágil, uma construção se mantém viva pela capacidade de continuar de pé contra o ataque dos ventos.